Quando eu andava na primária, saíram uns livros de poesia de autores portugueses que vinham também com uma cassete com as versões declamadas e cantadas das mesmas poesias. Eram um conjunto de quatro com as estações: Primavera, Verao, Outono, Inverno. A minha mãe comprou-os na loja de fotocópias da D. Tina, uma senhora anã a que a minha mãe chamava carinhosamente Tina Tóner. Eu adorei-os e lia e relia e ouvia e reouvia.
Um dia, a professora mandou-nos como trabalho de casa escrever uma quadra sobre o Outono. No dia seguinte à entrega dos poemas, resolveu ler à turma os seus dois favoritos. Um deles era o meu. O outro era da minha colega F. Quando a professora começou a ler o poema da F., reconheci-o imediatamente como sendo uma das quadras dos livros que a minha mãe me tinha dado e olhei para ela. Ela reconheceu no meu olhar que eu sabia. Ficou assustada e imagino que esperando que eu dissesse a verdade à professora. Mas não disse. Fiquei caladinha como um rato e não contei a ninguém.
Nunca falámos disto, eu e ela. Nunca soube se o plágio teria vindo da preguiça em pensar numa quadra ou era o resultado de horas de desespero perante uma folha em branco. (Curiosamente voltei a ter esta dúvida quando soube do plágio da Clara Pinto Correia.)
Sei que no momento, com os meus 7 ou 8 anos, o que me impressionou não foi o apropriar-se do trabalho de outro mas a injustiça: por um lado, que tivesse tido o mesmo reconhecimento que eu, que tinha de facto escrito o meu, por outro que tivesse mais reconhecimento que os meus colegas, que tinham trabalhado mais que ela.
Sobre nós ficou, desse momento em diante, o peso da mentira. Eu sabia algo dela que ela pensara que ninguém ia descobrir e eu receava descair-me sem querer (sou perita em meter a pata).
O último que soube dela, quando teríamos 20 anos, encaixa com este episódio. A F. continuava a não reconhecer as suas limitações e a tentar voar demasiado alto. Pelo facto de ser boa rapariga, estudiosa e esforçada, tenho a certeza de que triunfaria numa série de profissões, se ao menos pusesse de lado as ambições desmesuradas. Tenho a certeza que com o reconhecimento viria o sentimento de compensação, por muito que a início pudesse pensar que não era aquilo que queria.